Fuga.

Para a estrada. Correndo para lugar nenhum.
E ninguém saberia o que seria da gente.
E a gente não ia querer saber dessa gente.
Cada quilômetro curando cada centímetro de nós.

Para dentro. Em todo lugar.
Inocentes de que a fuga é de nós mesmos.
Acidentalmente descobrir que esse é o mistério.
Fugir de si mesmo para o interior de si mesmo.

Para o pequeno Lucid Café. De manhã.
Naquela quase esquina da Lexington Ave com a 38th St.
Entre um cappuccino e um café.
Entre o ensurdecedor barulho das sirenes e a sussurro no ouvido.

Para os poemas de Florbela. Onde a alma pesa mais de 21 gramas.
Sem notar que quando ela fala de si, escreve sobre nós.
Sem conseguir nos livrar das garras daquela tristeza enlutada.
Sem ver através dos versos que ela também estava em fuga.

Para um qualquer lugar anônimo. Mudar de nome.
Depois de assaltar cassinos como nos filmes de Soderbergh.
Com nosso plano infalível e risonho.
Com a contradição de usar a desonestidade para sermos honestos.

Em fuga. Todo dia.
Estamos em fuga. Não importa onde vamos.

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Preciso andar.

É sobre aquela música de Cartola. Você sabe né?
Se não sabia, agora sabe.
Rir pra não chorar.
É assim que a gente é.
A gente precisa sair e só voltar quando se encontrar.
Uma hora a gente precisa.
Essa é toda precisão que existe na vida.
Em todo lugar, em algum momento, alguém vai tentar.
Mas, cê sabe que hoje me perdi: e aquela parte que deixei lá atrás?
Esse “eu” que ficou lá?
Sim, porque quando a gente vai, uma parte da gente fica.
E uma hora essa parte acaba ficando longe demais.
Uma parte que procuro. Uma parte que deixei.
É o meu paradoxo.
Como o Pinóquio não poder dizer: meu nariz vai crescer agora.
Eu preciso ir muito longe de mim pra me encontrar. Mas muito longe eu acabo me perdendo de mim.
Labirinto.
Nunca soube sair de labirintos.
Da alma, das respostas, da dor, do coração.
Você entende? Você tá ouvindo?
Eu não sei me livrar do paradoxo.
Já te falei daqueles paradoxos?
Se tirar de grão em grão, em que ponto um monte de areia deixa de ser um monte de areia?
Se cada peça do navio de Teseu foi trocada uma vez, ele ainda é o navio de Teseu ou um novo navio?
Você sacou a questão?
De mudança em mudança.
Em que ponto eu deixo de ser eu e já sou outro?
Se eu me procuro tão longe, será que estou procurando a mim ou um outro?
Olha, eu me pergunto.
Mas continuo pobre de respostas.
Pobre certezas. Pobre de afirmações.
Pobre de você.
Mas deixe-me ir, preciso andar.
Vou por aí a procurar.
A música de Cartola. Você sabe né?
Se não sabia, agora sabe.

 

Café da manhã parte 2.

Eu lembro
O calor do café coado e o frio dos olhos na mesa
A dúvida de algo errado e a certeza da incerteza

Eu lembro
O silêncio servido com pão e a palavra cortada na faca
A ausência em nova versão e cada letra servindo de estaca

Eu lembro
Todas as dores em cor e o esmalte marrom cafeína
O lado escuro do amor e o castanho neon da retina

Eu lembro
O discurso já ensaiado e a fala soando vazia
O destino escolhendo o seu lado e o desarranjo da melodia

Eu lembro
Calculei o próximo passo e pensei como um Kasparov faria
Prevendo meu rei sem espaço e a jogada nem era minha

Eu lembro
O gosto de erro nos lábios e o peso do mundo na respiração
É nessa cena que eu falho e se eu falasse perdia a razão

Eu lembro
Te quis poema de Mario e te falei verso de Manoel
Te citei Paulo e seu mundo ordinário e ainda te vi mágica de Gabriel

Eu lembro
O sorriso que eu já não via e a dor que mantive em segredo
Antes das sete com um céu de ironia, era tarde demais e era muito cedo.

Eu lembro
Você,
esqueceu?

Café da manhã parte 1.

Milhões de graus caiam do céu lá fora
Eu estava ali, mas nem estava com a cabeça ali
Vai ver estive sempre certo que ia dar errado
Vai ver o errado era eu pensar assim
Cê sabe que o peso da alma é 21 gramas?
E o que sinto na alma é pesado demais pra mim
Minhas culpas pesam o dobro de noite na cama
E o que você falava eu nem queria
ouvir
Ou…
Eu tentando me agarrar em todas as partes
Nos cílios, nos lábios, no seu batom matte
O café nem passou, eu já era descarte
Olhando pro abismo com a cabeça em Marte
Cê sabe que eu tentava desvirar meu mundo?
E meu mundo insistia em permanecer
Um salto: da borda até chegar o fundo
Êta dia bom pra
morrer…
Ou…
Essa conversa roubando minha brisa
Mas eu também perco a brisa por coisas banais
Como os playboys na Evoque ouvindo Kendrick
Como capitalizar pra si causas sociais
Cê sabe que eu me via um verso de Jay-Z?
Mas 99 problemas eu tenho só agora
Já nem sei quanto mar vermelho abri
A bomba explodiu e não foi
lá fora
Ou…
As tragédias do noticiário dando tom
A fúria que eu sentia de fora pra dentro
Castanhos olhos, olhar neon
Falando e falando, mas sem argumentos
Cê sabe que sonhos não envelhecem?
E levo nossos sonhos guardados comigo
Dizem que a cada erro a gente cresce
E eu já devia ser gigante de errar
contigo
Ou…
Você já tinha ido embora antes de sair
Ou…
O beijo que você negou naquela hora
Ou…
Qualquer porra que você falou e eu não ouvi
Ou…
O fim, do fim, do fim, do fim
Ou…
A máquina moendo o pobre lá fora
Ou…
Eu te dei meu coração, você me devolveu pedra
Ou…
As coisas lindas que eu fiz você sentir
Ou…
No seu próximo retorno, pode não ser como antes
Eu andei pra muito longe
me perdi

Partes íntimas

Nossos amores impossíveis, que moram no nosso idealismo, que vivem na nossa imaginação. Que acontecem, mas nunca aconteceram. Que eram pra ser, mas não foram. Que esperam nosso futuro.
Nossas dores reprimidas, que vem à tona num sábado à noite, quando a gente não sai de casa e acaba sentado na frente da tv assistindo um programa qualquer e olhando fotos na internet.
Nossas desilusões não saradas de verões passados.
Nossas lembranças repentinas. Que no meio do expediente tiram aquele sorriso do rosto. Que surgem de repente, quando alguém comenta de uma cidade, quando outro fala do mar, quando a gente ouve uma música.
Nossas músicas estranhas que são cheias de memórias e quase tem cheiro e gosto.
Nossos segredos bem guardados, que temos um orgulho besta de não contar pra ninguém.
Nossos “eu te amo” que ficaram travados na garganta. Por medo. Por pensar demais. Por não pensar demais. Por não arriscar. Por não tentar. Por muito “não”e pouco “sim”. E os outros “eu te amo” que a gente diz sem testemunhas.
Nossas feridas abertas, essas que a gente mesmo futuca tanto que não deixa secar, não deixa sarar, não deixa esquecer. E quando a gente menos espera, “ai”… lá estão elas sangrando de novo.
Nossas lágrimas que ninguém viu. Mas a gente sabe que chorou. Baixinho. Quietinho. No carro, de noite. Na chuva. No chuveiro quente. Na estrada. No banheiro.
Nossas expectativas que não se cumpriram. E que a gente fica com aquela ponta de vergonha misturada com raiva toda vez que lembra que criou cada uma delas.
Nossos sonhos bobos de criança, de jovem, de adulto, que só a gente sabe o quanto foram sonhados e nunca foram realizados. Mas que continuamos sonhando com a esperança de um dia tomar coragem e fazer virar verdade.
Nossos desejos mais profundos e censurados. Que só a gente sabe que tem e nem sabe porque tem.
Nossas pequenas epifanias diárias. Que chegam de repente e fazem a gente perceber algo que não havíamos percebido. E nos sentimos pequenos idiotas por alguns segundos por não ter entendido antes.
Nosso singelo autoconhecimento. Que aponta exatamente onde vamos tropeçar. E tropeçamos. 
Nosso coração disparado. Nosso motivo pra respirar fundo. Nossa razão de perder a fala.
Nossos erros. Nossos achismos. Nossas vontades.
O que nos cala. O que nos toca. O que nos deixa tentados. O que nos arranca lágrimas. O que nos faz sentir vivos.

Essas são as nossas verdadeiras partes íntimas.
Esqueçam os genitais, peitos, bundas, que isso é só anatomia.
São essas outras partes que devemos cobrir e esconder ao sair por aí.
Que devemos ter bastante atenção pra quem mostramos.
Porque elas é que nos deixam nus de verdade toda vez que alguém as vê.

 

É disso que eu estou falando.

Minhas limitações fazem com que eu nunca fale exatamente aquilo que quero dizer.

Quando eu falei do sonho,
estava falando sobre despertar.

Quando eu falei do tempo,
estava falando sobre não ir embora.

Quando eu falei da música,
estava falando sobre saber ouvir.

Quando eu falei da infância,
estava falando sobre crescer.

Quando eu falei do vento,
estava falando sobre ser livre.

Quando eu falei sobre “dar um jeito”,
estava falando sobre não passar vontade.

Quando eu falei do meu lugar,
estava falando de ensinamentos.

Quando falei do mar,
estava falando de solidão.

Quando falei do olhar,
estava falando sobre verdades.

Quando eu falei de amor… estava falando de você.

Mas eu nunca falo exatamente aquilo que quero dizer.

Poema fugitivo.

A gente podia fugir.

Da vida. De tudo.
Dos outros. Do mundo.

Da rotina. Dos filhos.
Do bairro. Dos trilhos.

Do emprego. Do não dá.
De se esconder. De não tentar.

A gente
podia fugir.

Pra sempre. Pra nunca mais.
Pra qualquer canto. Pra não voltar atrás.

Pra andar junto. Pra sonhar.
Pra muito longe. Pra poder suspirar.

Pra praia. Pra viver.
Pra ser o que quisermos ser.

A gente

podia

fugir.

Com pressa. Com vontade.
Com o brilho nos olhos. Com a nossa verdade.

Com o sorriso no rosto. Com a nossa razão.
Com toda a certeza. Com nada nas mãos.

A             gente            podia            fugir.
Podia… mas não foge. Nunca foge.

Porque no fundo, meu amor,
a gente sabe:

não se trata de fugir da nossa  vida.

A gente precisa é parar de fugir dela.